Ano 3 - Número 1 - Agosto de 2007
 
 
 
  Intérprete brasileiro no Haiti
 

            Na década de 1990 houve um significativo aumento na utilização das Forças Armadas Brasileiras em Missões de Paz sob a égide da Organização das Nações Unidas – ONU. A origem de tal fato encontra-se particularmente na discussão em torno da ampliação dos assentos do Conselho de Segurança da ONU e o manifesto desejo do governo brasileiro em fazer parte desse restrito universo. Fez-se necessária a criação de núcleos responsáveis pelo planejamento, a organização, a preparação e a condução de missões do combate, tão distintas, e a qualificação de pessoal para o desempenho das mais diversas funções. A experiência colhida por militares do Exército Brasileiro em missões de paz, desde à intervenção na República Dominicana, na década de 1960 até as missões em Moçambique e Angola, na década de 1990, desempenhando a função de observador militar, foi somada às habilidades pessoais até então inertes; estruturas já existentes foram reorganizadas e criadas novas funções, como a de intérprete.
            Em relação à utilização de língua estrangeira nas Forças Armadas, e em particular no Exército Brasileiro, havia a preocupação da preparação de seus quadros apenas no que se referia a situações militares, valorizando sobremaneira o conhecimento do jargão empregado neste ambiente. Pode-se dizer que a preparação era voltada para as atividades administrativo-militares, no âmbito das representações diplomáticas no exterior, e para a realização de cursos de diversos níveis em nações amigas.
            Esse quadro muda com as missões de paz, em que a possibilidade de emprego do intérprete militar é muito vasto. A amplitude do léxico, a rápida capacidade de adaptação, o tato e a educação passam a ser a tônica. Isso tudo fica bem claro quando sabemos que um mesmo intérprete deve estar apto a auxiliar a negociação entre um chefe militar e um líder de grupo paramilitar, a acompanhar profissionais de saúde em um atendimento médico à população carente, a receber suspeitos em uma prisão, a traduzir depoimentos em um inquérito policial, a participar da negociação de contratos e até mesmo narrar um jogo de futebol. Por falar o idioma local, o intérprete fica em evidência e, muitas vezes, é visto pelas pessoas leigas como o representante mais acessível dos capacetes azuis.

A situação lingüística no Haiti
            Entre os meses de fevereiro e agosto de 2006 estive no Haiti, trabalhando como intérprete de francês para o Exército. Naturalmente foi uma excelente ocasião de colocar em prática o conhecimento do idioma francês. Mais que isso, foi a oportunidade de conviver com uma realidade histórica, social e lingüística por vezes muito diversa da nossa e, em outros momentos, muito parecida.
           No Haiti, convivem dois idiomas semelhantes na fonologia e distintos na estrutura e no caráter social: o francês e o kreyòl (crioulo haitiano). O francês é o idioma dos antigos colonizadores e ainda hoje é empregado como idioma oficial pelas repartições públicas, nos negócios com o exterior e pela camada mais elevada da população, a qual teve acesso à educação formal. O kreyòl, língua desenvolvida ao longo da colonização a partir da mescla de francês, espanhol, português, inglês e de diversos idiomas africanos, é empregado por toda a população. É o idioma de identidade nacional. É a língua que as famílias empregam em suas casas e que os comerciantes informais empregam nas ruas e, como muitas línguas africanas, é substancialmente oral. Aprende-se kreyòl muito mais pelo uso diário do que pelo rigor da gramática formal. Assim, é curioso quando perguntamos a um grupo de haitianos como se escreve exatamente determinada palavra. Certamente, haverá mais de uma opção e talvez seja mesmo o início de uma acalorada discussão entre eles. Considerando que mais de 90% da população haitiana não tem acesso ao ensino formal nas escolas, o crioulo haitiano é um idioma praticado por uma maioria essencialmente analfabeta. Alie-se a isso, a reforma ortográfica havida há alguns anos, o que provocou o desconhecimento da ortografia contemporânea por grande parte dos cidadãos. Quando são alfabetizadas nas escolas, as crianças haitianas o fazem em francês e, a partir daí, empregam muito mais a gramática francesa, embora exista também uma gramática de kreyòl.
            Mesmo com o uso intensivo do francês, a partir do início da escolarização não deixam de usar e abusar do kreyòl no dia-a-dia. Naturalmente, por ser o idioma da administração pública, dos negócios e ser ainda o idioma da escola haitiana, o francês e seu conhecimento são, entre os haitianos, um símbolo de status. Portanto, falar um francês gramaticalmente correto é sinônimo de muitos anos de estudo, sinônimo de estar preparado para a vida e de pertencer de alguma forma à elite.
            O preconceito em relação aos monoglotas falantes de kreyòl é evidente. Assim, quando perguntamos a um haitiano, por mais simples que seja, se ele fala e entende bem o francês, a resposta invariavelmente será positiva. Porém, ao longo da conversa – e isso dependendo do interlocutor - surgirão termos que não fazem parte do léxico francês. Ocorre que, diante da limitação de vocabulário, muitos haitianos recorrem a termos em kreyòl no meio das orações em francês. Entre eles mesmos, tal prática não causa problema algum, mas para um estrangeiro que utilize apenas o francês isso cria uma confusão enorme. A solução é aprender algumas palavras em kreyòl, ainda que seja apenas para identificar quando se está diante de uma miscelânea lingüística ou de limitação vocabular do falante estrangeiro. Um dos termos mais utilizados em kreyòl e, em conseqüência muito ouvido, é bagay, empregado como um substantivo genérico, um verdadeiro estepe vocabular. Seu significado aproxima-se da palavra “coisa” em português. Quando empregado em uma oração que deveria estar em francês é forte indício de falta de recurso vocabular. Há outros vocábulos que têm grafia distinta, porém são foneticamente idênticos e passam despercebidos por se equivalerem em mais de um aspecto. Apenas para ilustrar, seguem alguns exemplos:

Francês

Kreyòl

Português

merci

mèsi

Obrigado

Parlez plus doucement...

Pale pi dousman...

Fale mais devagar...

En quel côté vous restez?

Ki kote ou rete?

Onde você mora?

Au revoir

orevwa

adeus

A experiência de ensino do português aos haitianos

            Sendo a atividade do intérprete militar intensa, como já foi dito, durante o período em que estive no Haiti, pude eu mesmo vivenciá-la plenamente. Foram muitas horas de entrevistas, conversas e até discussões em um francês, permeadas de expressões em kreyòl. Não cabia discutir minúcias gramaticais ou imperfeições idiomáticas dos interlocutores, pois a meta era estabelecer comunicação com a maior precisão possível. Ou seja, era necessário entender quais eram as necessidades deles, transmiti-las a quem pudesse decidir e apresentar-lhes uma resposta, um retorno. Naturalmente, um povo tão carente e sofrido tinha muito a pedir àqueles que, de uma forma ou de outra, estavam ali para ajudá-los, mesmo que com muitos limites, em razão das limitações politicamente impostas. Por exemplo, ao militar era vedado dar parte da ração dele para crianças, em particular às meninas, pois isso poderia ser entendido como assédio sexual. Em muitas ocasiões, o jeep que conduzia os militares parava em alguma esquina e era abordado por crianças que pediam comida. No entanto, era para eles mesmas que não se deveria dar nada. Estes episódios eram extremamente constrangedores, esquecidos apenas quando se podia praticar pequenas ações para as quais não haveria restrições, desde que não atrapalhassem o serviço rotineiro e fossem devidamente autorizadas.
            Atualmente, há muitos organismos estrangeiros governamentais e não-governamentais trabalhando para tentar melhorar a vida dos haitianos. Muitos trabalham para melhoria na qualidade de vida, a longo prazo, por meio de obras de saneamento e de educação, com vistas a qualificar mão-de-obra e reduzir o desemprego. Qualquer diferencial que tenha utilidade profissional é válido. Ser capaz de se comunicar em outro idioma é um deles. Foi assim que comecei a ensinar português a alguns haitianos.
            A tarefa, que já fora executada com maior ou menor sucesso por outros companheiros nos anos anteriores, não era prevista, sendo realizada em caráter voluntário nas horas vagas do intérprete. Não havia sala de aula, material didático ou plano de aula. E, de minha parte, não havia experiência anterior no ensino de português para estrangeiros. No Exército, todos os oficiais e sargentos são formados para serem instrutores e, desta forma, vali-me da metodologia de ensino militar para começar a organizar as aulas. Pedi a amigos que me mandassem algum material didático de São Paulo (chegou em semanas) e, mesmo antes disso, comecei nossas primeiras conversas sobre a língua portuguesa falada no Brasil. Durante aproximadamente quatro meses, em minhas horas livres, ensinei desde a pronúncia das letras, passando por pronomes, substantivos, conjugação dos verbos mais utilizados até a formulação de frases simples. Fiquei muito satisfeito ao ver um de meus alunos ensaiando conversas (em português) com os soldados da base brasileira e mais feliz ao receber para correção uma carta de pedido de emprego, toda escrita em português.
            Em agosto do ano passado, tive de voltar ao Brasil e despedi-me de meus alunos. Deixei para eles o material didático e a recomendação de não desistirem. Espero de alguma forma ter ajudado, dando minha parcela de colaboração na reconstrução do Haiti.

 
 
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