Ano 3 - Número 1 - Agosto de 2007
 
 
 
  Conto do Casamento
 

E como se fosse rotina, caminhou.  Olhando para os lados percebeu que aquele não era seu lugar. Piscou os olhos ao tentar esconder as lágrimas, pressionou os lábios para sufocar o grito. Não deveria ser assim... A princípio era o sonho, aquilo que sempre quis. Planejou-o desde sempre e contou os dias para o evento. Amou incondicionalmente e entregou-se por completo. Vivia entre beijos, carícias, gemidos. Aquele fogo que chegava a doer deixava-a louca. E Madeleine gostava de sentir-se assim. Em um momento pisou em falso, não estava acostumada com o salto. E pela primeira vez o coração pareceu responder, disparou. Arriscou olhar para a direita,m flash cegou-lhe a vista. Só então percebeu ser o centro dos olhares. Passara toda a vida evitando chamar a atenção, nada de apresentar trabalhos ou arriscar-se em karaokês. Preferia ser a expectadora, aquela em que ninguém reparava. Era feliz dessa forma, ou pelo menos pensava ser. Pelas amigas era sempre eleita a confidente, jeito quieto, discrição impecável; os pais se orgulhavam da filha que terminou o colegial com notas brilhantes e que, diferentemente dos irmãos, nunca se metera em confusão. Nunca havia decepcionado ninguém, pelo menos até agora. Começou a reparar na respiração. Não estava ofegante como na véspera, pelo contrário, seu corpo parecia relaxar-se cada vez mais. Dava um passo, outro, porém, não sorria. Seu olhar de faquir passou a incomodar os convidados. O tapete vermelho começou a acabar e, antes que pensasse nele, o viu. Parecia nervoso, piscou-lhe com um dos olhos. Madeleine não tinha dúvidas de que Marcelo é seu grande amor. Sentia-se completa em sua companhia, gostava de sentar em seu colo e rir e beijar e explodir. Amava quando ele mexia em seus cabelos e chamava-a de princesa. Ele era seu príncipe, sua vida, sua razão e o coração. Alta entropia nos pensamentos da noiva. Nos passos finais, pensava nos dois anos de namora e noivado. Havia sido bom, Madeleine sempre quisera casar-se, mas, de repente, enxergou o futuro como um grande tédio. Amor, marido, filhos, família. Tédio. Ela só tinha vinte e poucos anos e nenhuma experiência de vida. Três namoros sérios e, agora, um casamento. Um curso superior e nenhum emprego. Pronúncia perfeita no inglês e sua lua-de-mel seria no Nordeste. Na prateleira, cinqüenta livros de aventura e uma vidinha padrão. Madeleine quis mais. Na hora H, olhos nos olhos, sorriso morno. Adeus. Marcelo a amaria para sempre, e como. Mas a noiva não estava presente em alma. Adeus. Marcelo precisava dela, mas...Adeus. As flores foram ao chão. Baque para todos, o inesperado aconteceu. Mas centro de atenções que isso, impossível. Madeleine era a vergonha da família, a decepção dos amigos, a tristeza do noivo. Ela disse adeus, sorriu e sentiu-se bem. Encontrou a verdadeira felicidade e ignorou a sociedade. Fugiu do combinado para iniciar uma vida. Trocou a princesa pela bruxa e ignorou os conselhos da fada-madrinha. Saiu do altar em tal velocidade que parecia estar voando em uma vassoura, tropeçou no salto e largou o sapatinho. Mas este nunca mais lhe serviria, pois os pés haviam inchado. Descalça, com o penteado desmoronando-se, foi para a rua. Não olhou para trás, o que havia deixado não lhe seria mais importante. Continuava a amar Marcelo e se alimentaria de lembranças, não queria estragar tudo. Pegou um táxi, seu destino era contra o vento. Só queria ir além, surpreender. Conseguiu. Nunca mais viu a família, os antigos amigos, porém continuou amando-os com a mesma intensidade. Percebeu que há inúmeras formas de amar e de reagir ao amor, mas que seu principal sentimento deveria ser por si própria. A vida era linda e a liberdade, o único caminho.

 
 
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